22.5.06
O 25 de Abril e a Contradição Aparente
Alguns leitores poderão ter achado tocados de contradição os dois últimos artigos que aqui escrevi : um, de saudação ao 25 de Abril de 1974 e o outro, comentando um texto célebre de António José Saraiva com muitas críticas a certos aspectos da Revolução de Abril, aquilo que então se designava por PREC, Processo Revolucionário em Curso.
Gostaria, por isso, de voltar ao assunto. Não porque pretenda estar ao abrigo desse pecadilho da contradição, sempre mais que possível em matéria político-revolucionária, mas porque creia que ela, na verdade, não existe no caso presente.
A saudação de Abril foi absolutamente genuína da minha parte. Vibrei com a data, como milhões de compatriotas; a ela aderi, com o entusiasmo da juventude, porventura excessivo, demasiado esperançoso, ainda sem o natural cepticismo dos anos, que costuma temperar euforias, as revolucionárias e as outras.
Apesar da falta de experiência política, vivera já o suficiente para perceber que o Regime de então estava esgotado, enredado numa Guerra para a qual não fora capaz de descortinar uma solução política, no decurso de quase década e meia, i.e., desde de 1961, até ao ano de 1974.
O ano de 1961, aliás, havia começado de forma premonitoriamente fatídica para o regime de Salazar, com o desvio do paquete Santa Maria, logo em Janeiro, a que se seguiu o início das hostilidades em Angola, em Fevereiro do mesmo ano, terminando com o saque da « jóia da coroa quinhentista », com a invasão dos territórios indianos de Goa, Damão e Diu, pelas tropas de Nehru, político ambicioso, que, afinal, também demonstrou que não era tão pacifista como se apregoava.
A resposta do Governo português às explosões de ódio rácico em Angola, no começo desse ano de 1961, foi pronta, no restabelecimento da ordem e da convivência entre as Comunidades, como lhe competia, mas a ela deveria ter-se seguido uma atitude de flexibilidade e de maior astúcia política, concebendo um plano de entendimento político, que contemplasse uma consulta popular, sobre os destinos dos territórios coloniais, com plena salvaguarda dos bens dos colonos europeus e dos interesses de Portugal e com a garantia de constituição de grupos políticos de diferentes inspirações doutrinárias e não admitindo apenas aqueles que representassem as facções armadas que contestavam a autoridade portuguesa.
Aqui residiria a prova de engenho político do Governo português. Várias circunstâncias então prevalecentes fortaleceriam a sua posição. A falta de maleabilidade política do Governo levou-o a enquistar-se numa rigidez imobilista, apresentada sob a forma de uma coerência pretensamente sólida, mas, na prática, de uma total ineficácia.
Entretanto, os anos foram passando e nem a fraqueza das guerrilhas, sobretudo em Angola, nem o grande desenvolvimento económico alcançado nos territórios lograram forjar a abertura política que se impunha. Essa falta de visão política haveria, pois, de custar caro ao Regime, com a revolução dos militares em 1974, derrubando o Governo e desencadeando uma tumultuosa mudança política, com todos os episódios de confusão e de desorientação que depois se conheceram.
Em Política, a oportunidade vale ouro e, quem a desperdiça, depois, ver-se-á sempre penalizado, não podendo, no entanto, de tal se queixar. Por isso temos necessidade de políticos, estadistas atentos às vicissitudes das diferentes épocas em que vivemos. Mas também é verdade que não se deve pedir a certas personagens aquilo que elas, pela sua formação e currículo conhecidos, nunca poderão efectivamente dar.
Salazar não acreditava no sistema democrático-parlamentar, ainda menos nos partidos e desconfiava da base moral do Capitalismo. Tinha uma mentalidade camponesa, ruralista e prezava acima de tudo a ordem, a disciplina, a obediência, a honestidade, as virtudes típicas do mundo em que fora criado, na sua Beira Alta pacata, de gente maioritariamente analfabeta, pobre e honrada, sobrevivente de um quadro de vida pré-industrial, em muitos pontos quase medievo.
Neste caldo de cultura nacional, reforçado pela emergência de soluções políticas autoritárias em grande parte da Europa do período entre as Guerras do século XX, dificilmente vingaria um convicto democrata desenvolvimentista, com a agravante de Portugal ter vivido, após a instauração da República, quase dois decénios de forte turbulência social e política que puseram o País à beira da bancarrota.
Depois do longo e duro consulado de Salazar, veio o do mais brando e melífluo Caetano, que durou cerca de 6 anos, de 1968 a 1974, já com um passivo enorme em relação à solução do problema das Guerras em África. Também Caetano não era um democrata de formação, embora fosse mais aberto à ideia de desenvolvimento económico e cultural, que, aliás, ainda conseguiu impulsionar com resultados muito satisfatórios, mas ainda assim insuficientes e, quanto às Guerras do Ultramar, problema fulcral do Regime, não se mostrou capaz de engendrar uma solução para elas, vindo a desiludir os sectores mais interessados na modernização do País.
Mas, dizer isto, não significa que tenhamos de absolver todas as acções praticadas pelos agentes políticos do pós-25 de Abril: a cada um a sua responsabilidade. Nunca poderemos justificar a nossa própria falta de consistência, com a de uma outra anterior, porque ficarão sempre as duas por condenar.
Foi mais ou menos neste sentido que António José Saraiva conduziu a sua argumentação naquele seu contundente artigo, diria mesmo que o terá feito, com propósito deliberadamente provocatório, para despertar consciências, numa altura em que poucos, no campo democrático, se atreviam a sair do tom «politicamente correcto» desse tempo. Só o denodado temperamento de escassos intelectuais, entre os quais é justo destacar AJS e Jorge de Sena, insuspeitos de simpatias salazaristas, mas lúcidos e desinibidos para exercer a crítica do novo regime, nos desconchavos que este ia velozmente produzindo.
Seguiram-se ao 25 de Abril demasiados erros e confusões, embalados por muita gente que estaria obrigada a dar provas de maior prudência e clarividência políticas. Não seria decerto aos militares do MFA, alguns ainda bastante jovens, nem aos voluntariosos estudantes das Universidades que as teríamos de pedir, mas à sociedade civil de então, às suas elites intelectuais e profissionais, que, na sua esmagadora maioria, falharam também a sua missão, por medo, por falta de convicções, certamente por muitas razões, qualquer delas, contudo, incompatível com o estatuto de elites, em que se julgavam situar, eles e os outros que assim mesmo se denominavam.
Desafortunadamente, para eles e também para nós, desapareceram cedo aqueles dois grandes vultos da cultura portuguesa : Jorge de Sena, logo a meio do ano de 1978, com 59 anos de idade, em plena pujança da sua intervenção intelectual, literária e cívica, e António José Saraiva, em Março de 1993, em circunstância tão inesperada quanto dramática, em plena sessão pública de participação cívica.
Ficou-nos um imenso vazio difícil de preencher, pela alta categoria intelectual, ética e cívica destes dois excelentes Professores Universitários, amigos de intervir na res publica, com oportunidade e acerto raros.
Vê-se bem, pelo actual panorama, a grande falta que eles nos fazem. Não temos hoje muitos interventores culturais, os chamados intelectuais, capazes de exercer idêntico espírito crítico com autoridade e isenção. Pelo contrário, assistimos a uma arregimentação da maioria deles, sempre alinhados nas suas intervenções, o que lhes retira credibilidade e impede que nasça, na restante população, o culto do exemplo que eles lhe poderiam e deveriam oferecer.
É este um dos nossos dramas presentes: a falta de elites com autoridade demonstrada para que a sua voz seja escutada. A sua ausência debilita extraordinariamente a nossa sociedade, deixando-a a vogar, ao sabor do acaso e dos interesses mesquinhos do momento, sem rumo, sem firmeza, sem convicção, sem consciência sequer.
Eis como nos encontramos, trinta e dois anos depois daquela esperançosa data, agora com o sentimento acentuado de amarga desilusão, circunstância que ainda mais dificulta a ultrapassagem da presente crise económica, mas também social, cultural e cívica em que vivemos. Só com exemplos vivos de saber, coragem e virtude, comprovadamente mobilizadores, dela conseguiremos sair.
O tempo, inexorável julgador, dirá se ainda verdadeiramente alcançaremos esse salvífico desiderato ...
Até lá, não nos resta senão ir remando, porque : Navegar é preciso…, naturalmente, desde que no rumo certo… mas, aqui chegados, voltaríamos inevitavelmente ao início da nossa interminável questão…
AV_Lisboa, 22 de Maio de 2006
Gostaria, por isso, de voltar ao assunto. Não porque pretenda estar ao abrigo desse pecadilho da contradição, sempre mais que possível em matéria político-revolucionária, mas porque creia que ela, na verdade, não existe no caso presente.
A saudação de Abril foi absolutamente genuína da minha parte. Vibrei com a data, como milhões de compatriotas; a ela aderi, com o entusiasmo da juventude, porventura excessivo, demasiado esperançoso, ainda sem o natural cepticismo dos anos, que costuma temperar euforias, as revolucionárias e as outras.
Apesar da falta de experiência política, vivera já o suficiente para perceber que o Regime de então estava esgotado, enredado numa Guerra para a qual não fora capaz de descortinar uma solução política, no decurso de quase década e meia, i.e., desde de 1961, até ao ano de 1974.
O ano de 1961, aliás, havia começado de forma premonitoriamente fatídica para o regime de Salazar, com o desvio do paquete Santa Maria, logo em Janeiro, a que se seguiu o início das hostilidades em Angola, em Fevereiro do mesmo ano, terminando com o saque da « jóia da coroa quinhentista », com a invasão dos territórios indianos de Goa, Damão e Diu, pelas tropas de Nehru, político ambicioso, que, afinal, também demonstrou que não era tão pacifista como se apregoava.
A resposta do Governo português às explosões de ódio rácico em Angola, no começo desse ano de 1961, foi pronta, no restabelecimento da ordem e da convivência entre as Comunidades, como lhe competia, mas a ela deveria ter-se seguido uma atitude de flexibilidade e de maior astúcia política, concebendo um plano de entendimento político, que contemplasse uma consulta popular, sobre os destinos dos territórios coloniais, com plena salvaguarda dos bens dos colonos europeus e dos interesses de Portugal e com a garantia de constituição de grupos políticos de diferentes inspirações doutrinárias e não admitindo apenas aqueles que representassem as facções armadas que contestavam a autoridade portuguesa.
Aqui residiria a prova de engenho político do Governo português. Várias circunstâncias então prevalecentes fortaleceriam a sua posição. A falta de maleabilidade política do Governo levou-o a enquistar-se numa rigidez imobilista, apresentada sob a forma de uma coerência pretensamente sólida, mas, na prática, de uma total ineficácia.
Entretanto, os anos foram passando e nem a fraqueza das guerrilhas, sobretudo em Angola, nem o grande desenvolvimento económico alcançado nos territórios lograram forjar a abertura política que se impunha. Essa falta de visão política haveria, pois, de custar caro ao Regime, com a revolução dos militares em 1974, derrubando o Governo e desencadeando uma tumultuosa mudança política, com todos os episódios de confusão e de desorientação que depois se conheceram.
Em Política, a oportunidade vale ouro e, quem a desperdiça, depois, ver-se-á sempre penalizado, não podendo, no entanto, de tal se queixar. Por isso temos necessidade de políticos, estadistas atentos às vicissitudes das diferentes épocas em que vivemos. Mas também é verdade que não se deve pedir a certas personagens aquilo que elas, pela sua formação e currículo conhecidos, nunca poderão efectivamente dar.
Salazar não acreditava no sistema democrático-parlamentar, ainda menos nos partidos e desconfiava da base moral do Capitalismo. Tinha uma mentalidade camponesa, ruralista e prezava acima de tudo a ordem, a disciplina, a obediência, a honestidade, as virtudes típicas do mundo em que fora criado, na sua Beira Alta pacata, de gente maioritariamente analfabeta, pobre e honrada, sobrevivente de um quadro de vida pré-industrial, em muitos pontos quase medievo.
Neste caldo de cultura nacional, reforçado pela emergência de soluções políticas autoritárias em grande parte da Europa do período entre as Guerras do século XX, dificilmente vingaria um convicto democrata desenvolvimentista, com a agravante de Portugal ter vivido, após a instauração da República, quase dois decénios de forte turbulência social e política que puseram o País à beira da bancarrota.
Depois do longo e duro consulado de Salazar, veio o do mais brando e melífluo Caetano, que durou cerca de 6 anos, de 1968 a 1974, já com um passivo enorme em relação à solução do problema das Guerras em África. Também Caetano não era um democrata de formação, embora fosse mais aberto à ideia de desenvolvimento económico e cultural, que, aliás, ainda conseguiu impulsionar com resultados muito satisfatórios, mas ainda assim insuficientes e, quanto às Guerras do Ultramar, problema fulcral do Regime, não se mostrou capaz de engendrar uma solução para elas, vindo a desiludir os sectores mais interessados na modernização do País.
Mas, dizer isto, não significa que tenhamos de absolver todas as acções praticadas pelos agentes políticos do pós-25 de Abril: a cada um a sua responsabilidade. Nunca poderemos justificar a nossa própria falta de consistência, com a de uma outra anterior, porque ficarão sempre as duas por condenar.
Foi mais ou menos neste sentido que António José Saraiva conduziu a sua argumentação naquele seu contundente artigo, diria mesmo que o terá feito, com propósito deliberadamente provocatório, para despertar consciências, numa altura em que poucos, no campo democrático, se atreviam a sair do tom «politicamente correcto» desse tempo. Só o denodado temperamento de escassos intelectuais, entre os quais é justo destacar AJS e Jorge de Sena, insuspeitos de simpatias salazaristas, mas lúcidos e desinibidos para exercer a crítica do novo regime, nos desconchavos que este ia velozmente produzindo.
Seguiram-se ao 25 de Abril demasiados erros e confusões, embalados por muita gente que estaria obrigada a dar provas de maior prudência e clarividência políticas. Não seria decerto aos militares do MFA, alguns ainda bastante jovens, nem aos voluntariosos estudantes das Universidades que as teríamos de pedir, mas à sociedade civil de então, às suas elites intelectuais e profissionais, que, na sua esmagadora maioria, falharam também a sua missão, por medo, por falta de convicções, certamente por muitas razões, qualquer delas, contudo, incompatível com o estatuto de elites, em que se julgavam situar, eles e os outros que assim mesmo se denominavam.
Desafortunadamente, para eles e também para nós, desapareceram cedo aqueles dois grandes vultos da cultura portuguesa : Jorge de Sena, logo a meio do ano de 1978, com 59 anos de idade, em plena pujança da sua intervenção intelectual, literária e cívica, e António José Saraiva, em Março de 1993, em circunstância tão inesperada quanto dramática, em plena sessão pública de participação cívica.
Ficou-nos um imenso vazio difícil de preencher, pela alta categoria intelectual, ética e cívica destes dois excelentes Professores Universitários, amigos de intervir na res publica, com oportunidade e acerto raros.
Vê-se bem, pelo actual panorama, a grande falta que eles nos fazem. Não temos hoje muitos interventores culturais, os chamados intelectuais, capazes de exercer idêntico espírito crítico com autoridade e isenção. Pelo contrário, assistimos a uma arregimentação da maioria deles, sempre alinhados nas suas intervenções, o que lhes retira credibilidade e impede que nasça, na restante população, o culto do exemplo que eles lhe poderiam e deveriam oferecer.
É este um dos nossos dramas presentes: a falta de elites com autoridade demonstrada para que a sua voz seja escutada. A sua ausência debilita extraordinariamente a nossa sociedade, deixando-a a vogar, ao sabor do acaso e dos interesses mesquinhos do momento, sem rumo, sem firmeza, sem convicção, sem consciência sequer.
Eis como nos encontramos, trinta e dois anos depois daquela esperançosa data, agora com o sentimento acentuado de amarga desilusão, circunstância que ainda mais dificulta a ultrapassagem da presente crise económica, mas também social, cultural e cívica em que vivemos. Só com exemplos vivos de saber, coragem e virtude, comprovadamente mobilizadores, dela conseguiremos sair.
O tempo, inexorável julgador, dirá se ainda verdadeiramente alcançaremos esse salvífico desiderato ...
Até lá, não nos resta senão ir remando, porque : Navegar é preciso…, naturalmente, desde que no rumo certo… mas, aqui chegados, voltaríamos inevitavelmente ao início da nossa interminável questão…
AV_Lisboa, 22 de Maio de 2006
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Passei para deixar o meu abraço.
Tendo em vista que navegar é preciso, continuarei seguindo o meu rumo.Um abraço
Tendo em vista que navegar é preciso, continuarei seguindo o meu rumo.Um abraço
Interessante encontrar aqui este texto!
Aqui, no Rio de Janeiro, as escolas públicas costumam ter nomes de personalidades nacionais e internacionais. Dei aulas na Escola Municipal Oliveira Salazar, em 1981. Essa escola passou a chamar-se, depois, Escola Municipal 25 de Abril.
Obrigada pelas visitas e pelos sempre gentis comentários.
MUITOS ABRAÇOS,
Bisbilhoteira.
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Aqui, no Rio de Janeiro, as escolas públicas costumam ter nomes de personalidades nacionais e internacionais. Dei aulas na Escola Municipal Oliveira Salazar, em 1981. Essa escola passou a chamar-se, depois, Escola Municipal 25 de Abril.
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